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Uso do objeto

Uso do objeto é uma noção formulada por Donald W. Winnicott para descrever uma mudança decisiva na relação entre o sujeito e aquilo que existe fora de seu controle onipotente. O conceito distingue a experiência de relacionar-se com um objeto ainda integrado ao mundo subjetivo da capacidade de reconhecer e utilizar um objeto percebido como externo, independente e capaz de sobreviver aos impulsos destrutivos.

Definição conceitual

Na teoria winnicottiana, “objeto” não designa apenas uma coisa material. Pode referir-se a uma pessoa, especialmente a figura cuidadora, ou a uma presença investida afetivamente. O uso do objeto ocorre quando essa presença passa a ser reconhecida como parte da realidade compartilhada, com existência própria. Antes disso, o bebê ou o paciente pode estabelecer uma relação de objeto, mas o objeto permanece fortemente marcado pelas projeções, necessidades e fantasias do sujeito.

A passagem da relação ao uso não é entendida como uma aquisição puramente intelectual. Ela depende de uma experiência emocional na qual o objeto é atacado em fantasia e, ainda assim, permanece disponível sem retaliar de modo destrutivo nem desaparecer. A sobrevivência do objeto permite que ele seja encontrado fora da área de controle mágico. “Usar”, nesse contexto, não significa explorar uma pessoa, mas poder contar com uma alteridade real para viver, criar, aprender e estabelecer vínculos.

Origem e contexto

Winnicott apresentou a formulação de modo sistemático no trabalho “O uso de um objeto e o relacionamento através de identificações”, discutido no fim da década de 1960 e posteriormente reunido em O brincar e a realidade. A proposta se insere em sua investigação sobre o desenvolvimento emocional primitivo, a dependência, a integração do self e o surgimento da capacidade de participar de uma realidade externa que não seja mera extensão do sujeito.

O conceito dialoga com a tradição das relações de objeto, mas introduz uma ênfase própria. Para Winnicott, não basta descrever representações internas ou investimentos libidinais. É necessário considerar o que o ambiente efetivamente faz. A continuidade, a confiabilidade e a sobrevivência do cuidador constituem condições para que a exterioridade seja descoberta. Por isso, o desenvolvimento psíquico depende simultaneamente do mundo interno e da qualidade das respostas ambientais.

Destruição e sobrevivência do objeto

A destruição ocupa lugar central nessa formulação. Winnicott não a reduz à agressão deliberada nem a um ato concreto de violência. Trata-se de uma destrutividade ligada ao processo de colocar o objeto fora da área de onipotência. Em fantasia, o sujeito destrói o objeto; na experiência compartilhada, o objeto sobrevive. Esse paradoxo permite que o objeto adquira realidade própria.

Sobreviver significa manter continuidade e identidade sem retaliar de maneira equivalente. Isso não exige passividade absoluta: cuidadores e analistas podem estabelecer limites, interpretar e reconhecer o impacto do que ocorre. O ponto decisivo é que não convertam a manifestação do sujeito em aniquilação do vínculo ou submissão vingativa. Quando a presença se mantém suficientemente estável, a agressividade pode deixar de representar apenas perigo e participar da diferenciação entre eu e não eu.

Desenvolvimento teórico

O uso do objeto articula vários temas winnicottianos. A mãe suficientemente boa adapta-se inicialmente às necessidades do bebê e, de forma gradual, introduz falhas toleráveis. O objeto transicional ocupa uma área intermediária entre criação subjetiva e percepção objetiva. O uso do objeto representa um passo adicional: a alteridade pode ser admitida sem que a criatividade pessoal precise ser abandonada.

Essa conquista nunca é completamente definitiva. Em situações de sofrimento, medo de perda ou dependência extrema, uma pessoa pode voltar a experimentar o outro sobretudo como prolongamento de suas necessidades ou como figura persecutória. A maturidade, nessa perspectiva, não elimina a dependência, mas torna possível reconhecer que o vínculo envolve duas existências distintas, ambas vulneráveis e dotadas de iniciativa.

Função clínica e interpretativa

Na clínica, o conceito orienta a atenção para a capacidade do analista de sobreviver aos ataques dirigidos ao enquadre e à relação. Silêncios, desqualificações, atrasos, rupturas de associação ou tentativas de provocar reações podem adquirir sentido no campo transferencial. Nem toda conduta deve ser automaticamente interpretada como teste do objeto, mas certas sequências mostram que o paciente precisa verificar se o vínculo resiste à sua destrutividade.

A sobrevivência analítica não equivale a tolerar qualquer comportamento. Ela inclui preservar o enquadre, reconhecer limites e evitar respostas movidas por revanche. A contratransferência pode indicar como o analista é convocado a sentir-se destruído, impotente ou retaliativo. Quando essa experiência é elaborada, o paciente pode encontrar um outro que não é simples produto de sua fantasia, ampliando sua capacidade de vínculo e de participação na realidade.

Veja também

Referências

WINNICOTT, Donald W. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago.

WINNICOTT, Donald W. O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Artmed.

ABRAM, Jan. A linguagem de Winnicott: dicionário das palavras e expressões utilizadas por Donald W. Winnicott. Rio de Janeiro: Revinter.

LAPLANCHE, Jean; PONTALIS, Jean-Bertrand. Vocabulário da psicanálise. São Paulo: Martins Fontes.

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