Narcisismo
Verbete da Enciclopédia da Psicanálise · psicanálise
O narcisismo refere-se à condição psíquica na qual o sujeito investe libidinalmente em si mesmo, seja como objeto de amor, seja como ideal a ser alcançado. Trata-se de um conceito central na psicanálise, presente desde Freud e desenvolvido por diversas correntes teóricas subsequentes, que designa tanto uma organização normal do desenvolvimento psíquico quanto uma estrutura patológica.
Definição e conceito
O narcisismo designa a atitude psíquica pela qual o sujeito trata a si mesmo como objeto de investimento libidinal. Em termos freudianos, trata-se de uma reversão da catexia objetal hacia a catexia do eu, numa operação em que a energia libidinal que antes se dirigia a objetos externos é redirecionada para o próprio eu. Este fenômeno pode ser compreendido como uma escolha de objeto por recolocação, na qual o sujeito toma a si mesmo como modelo de escolha objetal.
Freud distinguiu o narcisismo primário — fase normal do desenvolvimento na qual a criança toma a si mesma como objeto de amor total — do narcisismo secundário, que surge quando, frustrado em suas escolhas objetais, o eu retorna a si mesmo como objeto de amor. Esta distinção permite compreender tanto os processos normais de desenvolvimento quanto as estruturas patológicas do narcisismo.
Origem e contexto histórico
O termo narcisismo provém do mito grego de Narciso, jovem de beleza extraordinária que, ao ver sua reflexão na água, apaixona-se por ela e, incapazes de alcançar o objeto de seu amor, definha e transforma-se em flor. Freud introduziu o conceito na psicanálise em 1914, no ensaio “Para Introduzir o Narcisismo”, articulando-o à teoria da libido e ao destino das catexias objetais.
A publicação deste ensaio representou um momento crucial na teoria psicanalítica, pois permitiu a Freud reformular sua compreensão do eu e de suas relações com o mundo objetal. A partir de então, o narcisismo deixou de ser apenas uma descrição de comportamento para tornar-se um conceito estrutural fundamental.
Desenvolvimento teórico
Na teoria freudiana, o narcisismo relaciona-se intimamente com a constituição do eu e do ideal do eu. O eu, para Freud, é uma superfície de organização que resulta do conflito entre as demandas do isso, do supereu e da realidade. Quando a libido se retrai dos objetos, ela reflua para o eu, produzindo o que Freud denominou megalomania — uma supervalorização do eu que caracteriza os estados narcísicos.
O ideal do eu, por sua vez, constitui uma instância que resulta da identificação com os primeiros objetos de amor — geralmente os pais — e representa o padrão de perfeição que o eu busca alcançar. Quando este ideal não é alcançado, sobrevém o sentimento de inferioridade; quando é supostamente atingido, experimentamos a satisfação narcísica.
Heinz Kohut desenvolveu a mais sistemática teoria do narcisismo dentro da psicanálise contemporânea, propondo a existência de linhas narcísicas de desenvolvimento que, quando adequadamente nutridas pela empatia parental, evoluem para formas maduras de narcisismo — como a capacidade de humor, de empatia e de sabedoria. As descontinuidades neste desenvolvimento dão origem às perturbações narcísicas da personalidade.
Função clínica e interpretativa
Na clínica, o narcisismo manifesta-se tanto como traço de personalidade quanto como estrutura psíquica organizada. O paciente narcísico apresenta dificuldades na capacidade de estabelecer relações objetais genuínas, pois o outro é percebido como extensão do eu ou como fonte de espelhamento narcísico. A necessidade de admiração constante, a grandiosidade, a sensibilidade à crítica e a dificuldade em reconhecer o outro como sujeito separado constituem características presentes nestas estruturas.
Kohut enfatizou que o manejo clínico do paciente narcísico requer uma abordagem diferente da usada com pacientes neuróticos. O analista deve funcionar como objeto self, oferecendo-se como espelho, como ideal ou como alter ego, conforme a necessidade específica do paciente. Esta função empática permite a ressonância e a potencialização progressiva das estruturas narcísicas do paciente.
A transferência narcísica — diferente da transferência neurótica — caracteriza-se pela projeção de imagens grandiosas do self e de ideais sobre o analista. O trabalho analítico consiste em metabolizar estas projeções, permitindo que o paciente diferencie progressivamente o self do objeto e desenvolva capacidades interpessoais mais maduras.
Autores relacionados
- Sigmund Freud — conceito original e teoria das estruturas narcísicas
- Heinz Kohut — psicologia do self e teoria das perturbações narcísicas
- Otto Kernberg — organizações narcísicas da personalidade e tratamento das patologias narcísicas
- Donald Winnicott — conceito de verdadeiro e falso self, relacionado ao investimento narcísico
- Melanie Klein — posição depressiva e suas relações com o narcisismo
Veja também
- Eu e supereu — instâncias psíquicas relacionadas ao narcisismo
- Ideal do eu — padrão de perfeição narcísica
- Escolha de objeto — destino da libido objetal versus narcísica
- Pulsão de morte e pulsão de vida — destinos libidinais
Referências
Freud, Sigmund (1914). Para Introduzir o Narcisismo. In: Obras Completas, v. XII. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
Kohut, Heinz (1971). The Analysis of the Self. Nova York: International Universities Press.
Kohut, Heinz (1977). The Restoration of the Self. Nova York: International Universities Press.
Kernberg, Otto (1975). Borderline Conditions and Pathological Narcissism. Nova York: Jason Aronson.
Laplanche, Jean; Pontalis, Jean-Bertrand (1967). Vocabulário da Psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, 1985.
Link oficial
International Psychoanalysis Council — inpsyco.org