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Clivagem do eu

A clivagem do eu designa a coexistência, numa mesma organização psíquica, de duas atitudes contraditórias diante de uma realidade conflitante. Em vez de uma posição substituir integralmente a outra, ambas permanecem ativas, cada qual ligada a uma forma distinta de reconhecer ou recusar aquilo que causa angústia. O conceito ocupa lugar importante nos estudos freudianos sobre fetichismo, psicose, defesa e limites do teste de realidade.

Definição conceitual

O termo descreve uma divisão funcional pela qual o eu sustenta simultaneamente duas respostas incompatíveis. Uma delas leva em conta determinada percepção ou consequência da realidade; a outra a desmente e preserva uma satisfação, uma crença ou uma segurança ameaçada. As duas correntes não se anulam por meio de uma síntese estável. Elas continuam lado a lado e podem orientar pensamentos, afetos e condutas diferentes.

Essa formulação não deve ser confundida com a ideia cotidiana de indecisão, mudança de opinião ou hipocrisia consciente. A clivagem é um processo defensivo inconsciente e está relacionada ao modo como o psiquismo administra uma percepção que se tornou fonte de conflito intenso. Também não equivale ao chamado transtorno dissociativo de identidade, categoria diagnóstica constituída em outro campo conceitual e clínico.

Origem na obra de Freud

Sigmund Freud desenvolveu a noção especialmente em Fetichismo, de 1927, ao examinar a resposta infantil à percepção da diferença anatômica entre os sexos. Segundo seu modelo, uma corrente reconhece a percepção, enquanto outra a desmente e mantém uma crença anterior. O fetiche funcionaria como compromisso: registra, ao mesmo tempo, a realidade percebida e a tentativa de negar suas consequências psíquicas.

Nos textos tardios, sobretudo em A divisão do ego no processo de defesa e no Esboço de psicanálise, Freud ampliou o alcance do problema. A defesa bem-sucedida para uma exigência pulsional podia produzir uma ruptura interna persistente. A clivagem revelava, assim, que o eu não é uma unidade inteiramente homogênea e que sua relação com a realidade pode comportar soluções contraditórias sem que uma delas desapareça.

Desmentido e conflito psíquico

A clivagem do eu está estreitamente associada ao desmentido, frequentemente indicado pelo termo alemão Verleugnung. Nesse processo, a percepção não é simplesmente desconhecida. Ela é, de algum modo, registrada, mas uma de suas implicações é recusada. A fórmula paradoxal “sei, mas ainda assim” resume apenas de maneira aproximada essa coexistência, pois o processo não se reduz a uma declaração consciente.

Há uma diferença em relação ao recalque. No recalque, representações ligadas a uma exigência pulsional são mantidas afastadas da consciência. No desmentido acompanhado de clivagem, o problema se organiza em torno de uma percepção da realidade e de duas atitudes simultâneas diante dela. Na prática clínica, os mecanismos podem combinar-se, e sua distinção possui valor teórico mais do que a função de classificar rigidamente cada manifestação.

Desenvolvimentos posteriores

Melanie Klein empregou a noção de clivagem em um sentido relacionado, porém não idêntico ao uso freudiano tardio. Em sua teoria, a divisão do objeto e do eu em aspectos bons e maus participa das formas iniciais de organização da experiência. Essa operação protege o vínculo com o objeto bom contra impulsos destrutivos, mas pode limitar a integração quando permanece excessivamente rígida. O desenvolvimento permitiria maior reconhecimento de que qualidades amadas e odiadas pertencem ao mesmo objeto.

Autores das relações de objeto e outras correntes pós-freudianas estudaram a clivagem em quadros narcísicos, estados-limite e organizações psicóticas. Nessas abordagens, o termo pode designar separações duradouras entre representações de si e do outro, estados afetivos ou modos de relação. Como o conceito recebeu usos diferentes, é necessário indicar se a discussão se refere à divisão do eu descrita por Freud, à clivagem do objeto em Klein ou a formulações clínicas posteriores.

Função defensiva

A clivagem oferece uma solução para situações em que reconhecer plenamente uma realidade parece ameaçar uma satisfação ou produzir angústia intolerável. Ao conservar duas posições, o psiquismo evita uma escolha definitiva e protege setores distintos de sua organização. Essa solução pode preservar o funcionamento em certas áreas, mas exige que as correntes contraditórias permaneçam separadas.

O custo defensivo aparece quando experiências, lembranças e afetos não podem ser integrados. A pessoa pode alternar avaliações extremas, manter crenças incompatíveis em contextos diferentes ou apresentar zonas de funcionamento que parecem não se comunicar. Esses fenômenos não bastam, isoladamente, para afirmar a presença de clivagem. A hipótese clínica depende da história singular, do modo de relação, das associações e das formas assumidas pelo conflito.

Uso clínico e cuidados de interpretação

Na escuta psicanalítica, reconhecer correntes contraditórias não significa exigir uma coerência imediata. A clivagem pode ter desempenhado uma função de sobrevivência psíquica e sua interpretação requer atenção ao momento clínico. O trabalho busca criar condições para que experiências mantidas em compartimentos separados possam ser simbolizadas, relacionadas e toleradas com menor ameaça.

O conceito também convida a evitar diagnósticos baseados apenas em contradições comuns. Toda vida psíquica inclui ambivalência, conflito e diferentes modos de apresentação social. A especificidade da clivagem reside na manutenção defensiva de posições incompatíveis e na dificuldade de colocá-las em relação, não na simples existência de sentimentos opostos.

Veja também

Referências

FREUD, Sigmund. Fetichismo (1927).

FREUD, Sigmund. A divisão do ego no processo de defesa (1938/1940).

FREUD, Sigmund. Esboço de psicanálise (1940).

KLEIN, Melanie. Notas sobre alguns mecanismos esquizoides (1946).

LAPLANCHE, Jean; PONTALIS, Jean-Bertrand. Vocabulário da psicanálise.

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