Escola Inglesa
A Escola Inglesa é o nome pelo qual se costuma designar o conjunto de tradições psicanalíticas que se desenvolveram na Grã-Bretanha a partir dos anos 1920 e 1930. Não se trata de uma escola única, com uma doutrina homogênea, mas de um campo plural que reuniu kleinianos, freudianos e independentes em torno da Sociedade Britânica de Psicanálise.
A expressão cobre contribuições muito diversas, da análise infantil de Melanie Klein à psicologia do desenvolvimento de Donald Winnicott, da teoria dos grupos de Wilfred Bion à teoria do apego de John Bowlby. O que aproxima esses autores é o interesse pelas relações precoces, pelo mundo interno e pelo papel do ambiente na constituição do psiquismo.
Origens
A Sociedade Britânica de Psicanálise foi fundada em 1913 por Ernest Jones, inicialmente como London Psycho-Analytical Society. Nos primeiros anos, a psicanálise inglesa era pequena e fortemente ligada à difusão da obra de Freud. A partir dos anos 1920, com a chegada de Melanie Klein e de outros analistas, o campo se ampliou e ganhou densidade clínica.
Klein mudou-se para Londres em 1926, convidada por Ernest Jones. Sua prática com crianças e suas ideias sobre objetos internos, posições e identificação projetiva encontraram acolhida em parte da sociedade, mas também geraram resistências. A análise infantil tornou-se um dos principais eixos de debate e de produção teórica.
Os três grupos
Após as Discussões Controversas, realizadas entre 1941 e 1945, a Sociedade Britânica se organizou em três grupos: os kleinianos, os freudianos liderados por Anna Freud e os independentes, também chamados de middle group. Essa divisão não significou isolamento absoluto. Houve circulação de ideias, supervisões cruzadas e debates intensos ao longo de décadas.
Os kleinianos privilegiaram as fantasias inconscientes, as relações de objeto precoces, a identificação projetiva e as posições esquizoparanoide e depressiva. Os freudianos, herdeiros de Anna Freud, enfatizaram o ego, as defesas, o desenvolvimento e a adaptação à realidade. Os independentes, sem uma doutrina única, dialogaram com Klein, Freud e a psicanálise das relações objetais, desenvolvendo noções próprias sobre criatividade, brincar e ambiente.
Relações de objeto
Uma das contribuições centrais da Escola Inglesa é a teoria das relações de objeto. Em vez de pensar o psiquismo apenas a partir das pulsões e de suas vicissitudes, os autores ingleses descrevem o sujeito como alguém que se constitui na relação com objetos internos e externos. O objeto não é apenas alvo da pulsão, mas uma presença investida de amor, ódio, medo e desejo.
Ronald Fairbairn, por exemplo, deslocou a libido do prazer para a relação: o objetivo da pulsão seria o objeto, não apenas a descarga de tensão. Donald Winnicott descreveu a relação mãe-bebê como condição para a constituição do self. Melanie Klein mostrou como o mundo interno é povoado por objetos bons e maus, que organizam a experiência do sujeito.
Análise infantil e brincar
A Escola Inglesa transformou a clínica com crianças. Melanie Klein desenvolveu a técnica do brincar como via de acesso ao inconsciente infantil. Anna Freud sistematizou a observação, o diagnóstico e a adaptação da técnica à criança. Donald Winnicott trouxe a consulta terapêutica, o jogo do rabisco e a atenção ao ambiente.
Essas abordagens não se limitaram à infância. Elas modificaram a forma de escutar adultos, ao mostrar que o brincar, a criatividade, a regressão e a relação com o ambiente continuam presentes ao longo da vida. A clínica inglesa passou a valorizar não apenas a interpretação do conflito, mas a criação de condições para que o paciente possa pensar, brincar e se desenvolver.
Grupos e instituições
Wilfred Bion e outros autores ligados ao Tavistock Clinic desenvolveram uma abordagem psicanalítica dos grupos e das instituições. Bion descreveu os pressupostos básicos que atravessam a vida grupal, enquanto Elliott Jaques e outros pesquisadores aplicaram ideias psicanalíticas ao estudo de organizações, liderança e conflitos institucionais.
Essa vertente teve impacto na saúde mental, na educação, no trabalho social e na consultoria organizacional. A ideia de que instituições também têm inconsciente, defesas e ansiedades passou a fazer parte do vocabulário de profissionais que trabalham com grupos e organizações.
Apego e desenvolvimento
John Bowlby, embora tenha se afastado de algumas premissas kleinianas, é outro nome associado à tradição inglesa. Sua teoria do apego descreveu a importância dos vínculos precoces para a segurança emocional e para o desenvolvimento da personalidade. As pesquisas de Mary Ainsworth e de outros autores ampliaram esse programa e o aproximaram da psicologia do desenvolvimento.
A teoria do apego dialoga com a psicanálise das relações objetais, mas não se confunde com ela. Enquanto a psicanálise enfatiza fantasias, conflitos e o inconsciente, a teoria do apego privilegia padrões observáveis de interação e de regulação emocional. O diálogo entre os dois campos tem sido produtivo em pesquisas sobre trauma, adoção, acolhimento institucional e parentalidade.
Autores principais
- Melanie Klein (1882-1960)
- Anna Freud (1895-1982)
- Donald Winnicott (1896-1971)
- Wilfred Bion (1897-1979)
- Ronald Fairbairn (1889-1964)
- Michael Balint (1896-1970)
- John Bowlby (1907-1990)
- Hanna Segal (1918-2011)
- Herbert Rosenfeld (1910-1986)
- Donald Meltzer (1922-2004)
Recepção no Brasil
A Escola Inglesa teve influência decisiva na psicanálise brasileira. Sociedades psicanalíticas de São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre incorporaram autores kleinianos, winnicottianos e bionianos à formação de analistas. Muitos psicanalistas brasileiros fizeram análise didática ou supervisão com analistas britânicos, o que fortaleceu esse vínculo.
O vocabulário inglês está presente em cursos, supervisões e publicações. Conceitos como holding, objeto transicional, posição depressiva, identificação projetiva, função alfa e continente fazem parte da formação de grande parte dos psicanalistas brasileiros, mesmo entre aqueles que se identificam com outras tradições.
Influência e desdobramentos
A Escola Inglesa permanece viva em instituições de formação, periódicos, grupos de estudo e serviços de saúde mental. Sua ênfase nas relações precoces, no ambiente e na clínica de pacientes graves influenciou a psicanálise contemporânea, a psicoterapia psicodinâmica e os estudos sobre desenvolvimento emocional.
O diálogo com a neurociência, a teoria do apego e a pesquisa empírica ampliou o alcance de algumas de suas ideias. Ao mesmo tempo, a tradição inglesa manteve seu núcleo clínico: a atenção à transferência, ao mundo interno e à singularidade da experiência emocional.
Veja também
- Melanie Klein
- Donald Winnicott
- Wilfred Bion
- Anna Freud
- Relações de objeto
- Posição depressiva
- Objeto transicional
Referências
- KOHON, Gregorio (org.). The British School of Psychoanalysis: the independent tradition. London: Free Association Books, 1986.
- HINSHELWOOD, R. D. Dicionário do pensamento kleiniano. Porto Alegre: Artes Médicas, 1992.
- ROUDINESCO, Élisabeth; PLON, Michel. Dicionário de psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
- GREENBERG, Jay R.; MITCHELL, Stephen A. Object relations in psychoanalytic theory. Cambridge: Harvard University Press, 1983.
- WINNICOTT, D. W. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.
- BION, W. R. Aprender da experiência. Rio de Janeiro: Imago, 1980.
- BOWLBY, John. Apego e perda. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
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Texto preparado pela editoria do psicanalise.wiki.br, sob responsabilidade de Felipe Chaves da Silva.