Heinz Kohut
Heinz Kohut foi um psicanalista austríaco radicado nos Estados Unidos, criador da psicologia do self. Sua obra deslocou a atenção do conflito pulsional para a formação e a coerência do self, descrevendo o papel dos objetos do self, da empatia e da experiência de reconhecimento no desenvolvimento psíquico.
Kohut é uma referência central para a clínica dos transtornos narcísicos e das configurações borderline. Seus conceitos de selfobject, self grandioso, imago parental idealizada e internalização transmutadora influenciaram a psicanálise contemporânea, a psicoterapia psicodinâmica e as abordagens intersubjetivas.
Biografia
Heinz Kohut nasceu em Viena, em 3 de maio de 1913, e morreu em Chicago, em 8 de outubro de 1981. Filho de uma família judia, estudou medicina em Viena e emigrou para os Estados Unidos em 1939, após a anexação da Áustria pela Alemanha nazista. Em Chicago, especializou-se em neurologia e psiquiatria e fez formação psicanalítica no Chicago Institute for Psychoanalysis.
Durante as décadas de 1950 e 1960, Kohut foi um analista de orientação freudiana clássica, respeitado por seus trabalhos sobre empatia, narcisismo e técnica. Nos anos 1960, presidiu a American Psychoanalytic Association e publicou o artigo sobre as formas e transformações do narcisismo, que abriu caminho para uma teoria própria e culminaria na psicologia do self.
Do narcisismo à psicologia do self
A teoria freudiana clássica tratava o narcisismo como uma fase do desenvolvimento ou como uma configuração patológica. Kohut propôs outra leitura: o narcisismo não é apenas algo a ser superado, mas uma dimensão permanente da vida psíquica, ligada à autoestima, à coerência do self e à possibilidade de investir em ideais.
Nessa perspectiva, o desenvolvimento saudável não consiste em abandonar o narcisismo, mas em transformá-lo. A criança passa de formas arcaicas de grandiosidade e idealização para formas mais maduras de autoestima, ambição, criatividade e vínculo com ideais. O self se organiza a partir da relação com objetos que desempenham funções específicas.
Objetos do self
O conceito de selfobject, traduzido como objeto do self ou objeto-self, designa o outro que desempenha uma função para a manutenção do self. Não é apenas uma pessoa externa, mas uma experiência de relação que sustenta a coesão, a continuidade e o valor do self. A mãe que acolhe, o pai que admira, o professor que reconhece e o analista que compreende podem funcionar como objetos do self.
Kohut descreve três formas principais: o self grandioso, que busca reconhecimento e admiração; a imago parental idealizada, que permite ao sujeito se vincular a um outro poderoso e calmante; e o self alterego, que busca uma experiência de semelhança e pertencimento. Essas configurações não são patológicas em si. Tornam-se problemáticas quando ficam fixadas ou quando o ambiente não responde de forma adequada.
Internalização transmutadora
A internalização transmutadora é o processo pelo qual o sujeito transforma experiências de cuidado e reconhecimento em funções psíquicas próprias. Quando o objeto do self responde de modo suficientemente bom, mas não perfeito, a criança pode internalizar a função e desenvolver capacidades de autoestima, regulação e consolo.
As falhas empáticas não são necessariamente traumáticas. Em doses toleráveis, elas permitem que o sujeito desenvolva recursos próprios. O problema surge quando as falhas são graves, repetidas ou ocorrem em momentos de fragilidade, deixando o self sem recursos para se reorganizar. A clínica, nesses casos, precisa oferecer uma nova experiência de resposta empática.
Empatia e método clínico
Kohut definiu a empatia como um método de observação e de acesso à experiência subjetiva do outro. Não se trata de bondade ou de concordância, mas de uma forma de escuta que procura compreender o mundo interno do paciente a partir de seu próprio ponto de vista. A empatia permite formular interpretações que façam sentido para o sujeito, em vez de aplicar teorias externas.
Na clínica, o analista funciona como objeto do self, oferecendo compreensão, reconhecimento e estabilidade. A interpretação não visa apenas revelar conflitos, mas restaurar a coerência do self e permitir que o paciente desenvolva funções que não pôde construir. O trabalho analítico inclui a elaboração das falhas empáticas e a reconstrução da história de reconhecimento.
Transtornos narcísicos
Kohut dedicou-se especialmente aos pacientes com transtornos narcísicos, que apresentam fragilidade na autoestima, sensibilidade à crítica, dificuldade de regular afetos e relações marcadas por idealização e desvalorização. Em vez de interpretar esses fenômenos apenas como defesas contra a inveja ou a agressividade, ele os compreendia como expressões de um self fragilizado que busca reconhecimento e coesão.
Essa leitura teve efeitos técnicos importantes. O analista deveria evitar interpretações que humilhassem ou desqualificassem a experiência do paciente, sustentando uma atitude de compreensão e de validação. A reconstrução genética, a interpretação das transferências de objeto do self e o manejo das rupturas empáticas tornaram-se ferramentas centrais.
Self bipolar e tripolar
Kohut descreveu o self como uma estrutura bipolar, formada por ambições e ideais. De um lado, o self grandioso busca reconhecimento e expressão; de outro, a imago parental idealizada oferece metas e valores. O desenvolvimento saudável articula esses dois polos, permitindo que o sujeito tenha ambição, ideal e capacidade de realização.
Em formulações posteriores, ele acrescentou um terceiro polo, ligado às habilidades e aos talentos. O self tripolar integra ambição, ideal e competência, permitindo uma vida criativa e engajada. A clínica busca favorecer essa integração, em vez de eliminar as dimensões narcísicas da personalidade.
Recepção no Brasil
A psicologia do self chegou ao Brasil nos anos 1980 e 1990, sobretudo por meio de autores ligados à psicanálise norte-americana e à clínica de pacientes com transtornos narcísicos. Seus conceitos foram incorporados a cursos, supervisões e pesquisas sobre autoestima, vergonha, empatia e relações de objeto.
No debate brasileiro, Kohut dialoga com Winnicott, Ferenczi e com as abordagens intersubjetivas. A ênfase na experiência subjetiva e na responsividade do analista aproxima sua obra de uma clínica relacional, sem abandonar a tradição psicanalítica.
Influência e desdobramentos
A psicologia do self influenciou a psicanálise contemporânea, a psicoterapia psicodinâmica e os estudos sobre desenvolvimento emocional. Conceitos como empatia, selfobject e internalização transmutadora passaram a circular em diferentes tradições, mesmo entre autores que não se identificam com Kohut.
Sua obra também abriu caminho para a psicanálise intersubjetiva e para a valorização da experiência do paciente como fonte de conhecimento clínico. A ênfase na compreensão empática e na reconstrução do self permanece relevante para o tratamento de pacientes que sofreram falhas precoces de reconhecimento.
Obras principais
- A análise do self (1971)
- A restauração do self (1977)
- Como a análise cura? (1984, póstumo)
- Os ideais do self e a psicologia do self (1985, póstumo)
Veja também
Referências
- KOHUT, Heinz. A análise do self. Rio de Janeiro: Imago, 1988.
- KOHUT, Heinz. A restauração do self. Rio de Janeiro: Imago, 1988.
- KOHUT, Heinz. Como a análise cura?. Porto Alegre: Artes Médicas, 1989.
- SIEGEL, Allen M. Heinz Kohut e a psicologia do self. Porto Alegre: Artes Médicas, 1994.
- GREENBERG, Jay R.; MITCHELL, Stephen A. Object relations in psychoanalytic theory. Cambridge: Harvard University Press, 1983.
- ROUDINESCO, Élisabeth; PLON, Michel. Dicionário de psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
Crédito da imagem: foto de capa de The Analysis of the Self (1971). Domínio público, via Wikimedia Commons.
Texto preparado pela editoria do psicanalise.wiki.br, sob responsabilidade de Felipe Chaves da Silva.