Jacques Lacan
Jacques Lacan foi um psicanalista francês cuja obra reorganizou a leitura de Freud a partir da linguística, da filosofia e da lógica. Seu ensino, iniciado nos anos 1950 e conduzido até 1981, deu origem a uma das tradições mais influentes da psicanálise contemporânea, com desdobramentos clínicos, institucionais e culturais em vários países, inclusive no Brasil.
Lacan não criou uma “nova psicanálise” separada de Freud. Propôs um retorno aos textos freudianos, especialmente ao inconsciente, à sexualidade, à transferência e ao sintoma, para reler esses conceitos à luz da estrutura da linguagem. Dessa operação resultam noções como sujeito, Grande Outro, objeto a, gozo e os registros imaginário, simbólico e real.
Biografia
Jacques-Marie Émile Lacan nasceu em Paris, em 13 de abril de 1901, e morreu na mesma cidade, em 9 de setembro de 1981. Filho de uma família católica de classe média, estudou no colégio Stanislas e ingressou na Faculdade de Medicina de Paris em 1920. Formou-se médico em 1932, com uma tese sobre a psicose paranoica e suas relações com a personalidade, escrita sob influência da psiquiatria francesa e da fenomenologia.
Nos anos 1930, aproximou-se dos círculos surrealistas e da filosofia de Hegel, além de acompanhar os debates sobre a psicanálise em Paris. Foi analisado por Rudolph Loewenstein e tornou-se membro da Société Psychanalytique de Paris. Durante a Segunda Guerra Mundial, trabalhou em hospitais e manteve atividade clínica em condições difíceis.
Formação e primeiros trabalhos
A formação psiquiátrica de Lacan deixou marcas duradouras em sua obra. O interesse pelas psicoses, pela linguagem dos pacientes e pela estrutura do delírio aparece já na tese de 1932 e retorna em vários momentos de seu ensino. Diferentemente de uma leitura apenas médica, ele procurou entender a psicose como uma forma de relação com a linguagem, com o corpo e com o outro.
Em 1936, apresentou em Marienbad uma primeira formulação do estádio do espelho. A versão mais conhecida, porém, é a de 1949, no congresso de Zurique. Nela, Lacan descreve o momento em que a criança reconhece sua imagem no espelho e passa a se identificar com uma imagem unificada de si, ao mesmo tempo em que essa unidade é alienante, porque vem de fora e encobre a dispersão do corpo pulsional.
O retorno a Freud
Em 1953, após conflitos sobre a formação de analistas e a condução das cure, Lacan deixou a Société Psychanalytique de Paris com Daniel Lagache e outros colegas, fundando a Société Française de Psychanalyse. No mesmo ano, apresentou o texto “Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise”, conhecido como Discurso de Roma, que se tornou uma espécie de manifesto de seu retorno a Freud.
A expressão “retorno a Freud” não significava repetição literal. Lacan criticava a leitura adaptativa da psicanálise feita pela psicologia do ego, especialmente a versão americana que transformava o eu em instância autônoma e a análise em ajustamento social. Para ele, o inconsciente freudiano não é um apêndice do eu, mas uma estrutura que divide o sujeito e que se manifesta na fala, no sonho, no chiste, no sintoma e no ato falho.
Linguagem, sujeito e Outro
A partir dos anos 1950, Lacan aproxima a psicanálise da linguística de Ferdinand de Saussure e da antropologia estrutural de Claude Lévi-Strauss. O inconsciente passa a ser descrito como estruturado como uma linguagem, fórmula que não significa que ele seja um idioma secreto, mas que seus efeitos obedecem a leis de significantes, substituições, condensações e deslocamentos.
O sujeito lacaniano não é o indivíduo biológico nem o eu consciente. É um sujeito dividido, representado por um significante para outro significante. O Grande Outro designa o campo da linguagem, da lei e dos significantes que antecedem o sujeito e organizam sua experiência. O sujeito não controla esse campo: ele é falado por ele, ao mesmo tempo em que tenta nele se representar.
Essa concepção desloca a clínica. O analista não escuta apenas o conteúdo das histórias, mas a forma como o sujeito se posiciona diante do que diz, os significantes que se repetem, as lacunas, os equívocos e aquilo que insiste sem se deixar significar. A interpretação lacaniana não busca traduzir o inconsciente para uma linguagem consciente, mas produzir um efeito de corte na fixação de sentido.
Imaginário, simbólico e real
Lacan organiza a experiência psíquica em três registros. O imaginário é o campo da imagem, da identificação, da ilusão de unidade e da relação especular com o semelhante. O simbólico é o campo da linguagem, da lei, da cultura e da troca de significantes. O real não é a realidade empírica, mas aquilo que resiste à simbolização, que irrompe como impossível e que retorna no corpo, no sintoma e na angústia.
Os três registros não são fases do desenvolvimento. Funcionam como dimensões articuladas, com predominância variável em cada estrutura clínica. Na psicose, a questão da foraclusão do Nome-do-Pai ocupa lugar central; na neurose, o recalque e a fantasia organizam a relação do sujeito com o desejo; na perversão, a estrutura da fantasia e o lugar do objeto ganham outra configuração.
Desejo, gozo e objeto a
O desejo, em Lacan, é desejo do Outro. Isso não significa que o sujeito deseje simplesmente o que o outro deseja, mas que seu desejo se constitui na relação com a falta do Outro, com o que o Outro não tem e não pode dar. O objeto a designa o objeto causa do desejo, um resto que não se confunde com um objeto empírico e que sustenta a fantasia.
O gozo é outro conceito decisivo. Não é prazer, nem satisfação harmoniosa. É uma satisfação paradoxal, ligada ao excesso, ao sofrimento e à repetição. O sintoma, nessa perspectiva, não é apenas um erro a ser corrigido, mas uma formação que articula desejo, defesa, gozo e laço social. A clínica lacaniana procura ler o sintoma em sua função, sem prometer sua eliminação total.
Clínica lacaniana
A clínica lacaniana é conhecida pela ênfase na fala, na transferência e na responsabilidade do sujeito. O analista não ocupa o lugar de mestre que sabe o que o paciente precisa, mas sustenta um lugar de falta, de escuta e de desejo. A interpretação visa o significante, o equívoco e o ponto de impossível, não a produção de uma explicação totalizante.
Lacan também ficou conhecido pelas sessões de duração variável. Em vez de padronizar o tempo da sessão, ele sustentava que o corte poderia ter função clínica, ao incidir sobre um momento significativo da fala. A prática gerou debates intensos sobre técnica, formação e ética, e continua sendo uma das principais divergências entre lacanianos e outras orientações.
Escolas e transmissão
Em 1964, Lacan fundou a École Freudienne de Paris, depois de romper com a International Psychoanalytical Association. A EFP tornou-se um espaço de transmissão de seu ensino, com seminários, cartéis e a experiência do passe, dispositivo criado para testemunhar a passagem de analisante a analista. Em 1980, Lacan dissolveu a escola, gesto que teve efeitos institucionais duradouros.
Após sua morte, o campo lacaniano se fragmentou em diversas escolas, associações e redes internacionais. A Association Mondiale de Psychanalyse, fundada em 1992, e a École de la Cause Freudienne são algumas das instituições que reivindicam sua herança. Essa pluralidade é uma marca do lacanismo: não há uma única ortodoxia, mas uma disputa permanente sobre a leitura de Lacan.
Recepção no Brasil
A psicanálise lacaniana chegou ao Brasil nos anos 1970, com grupos de leitura, cursos e analistas que tiveram contato com o ensino francês. Nos anos 1980 e 1990, multiplicaram-se escolas, fóruns e associações filiadas a diferentes redes internacionais, com presença em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, Salvador e outras cidades.
Hoje, o lacanismo é uma das correntes mais ativas da psicanálise brasileira, com produção acadêmica, clínica institucional, editoras e periódicos. Sua influência também se estende à cultura, à crítica literária, à educação e ao debate público sobre saúde mental, o que ampliou a circulação de conceitos como sujeito, gozo, sintoma e laço social.
Homofobia e machismo na obra
A obra de Lacan contém passagens homofóbicas e sexistas que precisam ser lidas com atenção crítica. Não se trata de episódios isolados de conversa, mas de formulações publicadas em seminários e textos que circularam amplamente. Ignorar esses trechos produz uma leitura idealizada do autor e dificulta compreender a relação entre sua teoria e os preconceitos de seu tempo.
No Seminário, livro 8: a transferência (1960-1961), Lacan afirma que o amor grego “permanece uma perversão, por maior sublimação que seja” e conclui: “A homossexualidade não deixava de ser o que é, uma perversão” (LACAN, 1992, p. 39). Mais adiante, ao comentar O banquete de Platão, descreve a cena como “uma espécie de assembleia de tias, como se diz, uma reunião de bichas velhas” (LACAN, 1992, p. 47). O uso do termo “bichas” não é apenas descritivo: é um insulto homofóbico dirigido a homens homossexuais.
No Seminário, livro 5: as formações do inconsciente (1957-1958), Lacan afirma que a homossexualidade seria uma perversão “intimamente vinculada à terminação do complexo de Édipo”. Ele acrescenta que se fala dos homossexuais, que se cuida deles, mas que não se os cura, e que seriam “perfeitamente curáveis” (LACAN, 1999, p. 213). A formulação associa a homossexualidade a uma falha no Édipo e sugere que ela poderia ser corrigida, ainda que, na prática, Lacan tenha acolhido homossexuais em análise e na formação de analistas.
O machismo aparece de modo mais explícito nas formulações sobre o feminino. Em O seminário, livro 20: mais, ainda (1972-1973), Lacan escreve: “A mulher, isto só se pode escrever barrando-se o A. Não há A mulher, artigo definido para designar o universal” (LACAN, 1985, p. 98). A frase deu origem ao aforismo “A mulher não existe”. Em sua leitura lógica, ela não significa que mulheres não existam, mas que não há um universal feminino. Ainda assim, a formulação foi recebida por parte do feminismo como uma operação falocêntrica, que trata o masculino como padrão e o feminino como exceção ou não-todo.
No mesmo seminário, Lacan afirma que “o ato de amor é a perversão polimorfa do macho” (LACAN, 1985, p. 98). A frase naturaliza a agressividade masculina e associa o amor a uma disposição do “macho”, o que reforça estereótipos de gênero. Críticas feministas, como as de Luce Irigaray, e críticas queer, como as de Judith Butler, questionam o modo pelo qual a psicanálise lacaniana constrói a diferença sexual em torno do falo e da falta.
É importante distinguir a teoria da prática institucional. Roudinesco observa que Lacan não tratava a homossexualidade como orientação sexual, mas como uma forma de perversão, e que, ao mesmo tempo, aceitava homossexuais em análise e na Escola Freudiana de Paris, em um contexto em que a IPA os excluía da formação. Essa contradição não absolve as passagens homofóbicas. Ela mostra que a obra é atravessada por tensões entre preconceito, clínica e instituição.
Ler Lacan criticamente não significa descartar sua contribuição. Significa reconhecer que uma teoria pode produzir conceitos importantes e, ao mesmo tempo, carregar preconceitos que precisam ser nomeados. A homofobia e o machismo em seus textos são parte desse legado e exigem posicionamento ético de quem o ensina e de quem o utiliza na clínica.
Obras principais
- Da psicose paranoica em suas relações com a personalidade (1932)
- Escritos (1966)
- O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964)
- O seminário, livro 10: a angústia (1962-1963)
- O seminário, livro 16: de um Outro ao outro (1968-1969)
- O seminário, livro 20: mais, ainda (1972-1973)
- O seminário, livro 23: o sinthoma (1975-1976)
- Outros escritos (2001, póstumo)
Veja também
Referências
- LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
- LACAN, Jacques. O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
- LACAN, Jacques. O seminário, livro 20: mais, ainda. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.
- ROUDINESCO, Élisabeth. Jacques Lacan: esboço de uma vida, história de um sistema de pensamento. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
- FINK, Bruce. O sujeito lacaniano: entre a linguagem e o gozo. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
- DOR, Joël. Introdução à leitura de Lacan. Porto Alegre: Artes Médicas, 1989.
- JORGE, Marco Antonio Coutinho. Lacan, o grande freudiano. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.
- ROUDINESCO, Élisabeth; PLON, Michel. Dicionário de psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
- QUINET, Antonio; JORGE, Marco Antonio Coutinho (orgs.). As homossexualidades na psicanálise: na história de sua despatologização. São Paulo: Segmento Farma, 2013.
- IRIGARAY, Luce. Speculum de l’autre femme. Paris: Minuit, 1974.
- BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.
Crédito da imagem: Foto Moisio, 1969. Domínio público, via Wikimedia Commons.
Texto preparado pela editoria do psicanalise.wiki.br, sob responsabilidade de Felipe Chaves da Silva.